Memórias Poéticas: fragmentos da história & presença da mulher

Ana Moreira, a presença da mulher antes da construção do forte.

“Antes da construção do Forte Príncipe da Beira, 1776, a gente sabe que no local onde está construído o forte, existia uma senhora negra que se chamava Ana Moreira e que foi expulsa pelo Domingos Sambucetti para a construção do forte. Ana Moreira em 1743  era dono de muitas cabanas aqui como mesmo falou Sambucetti. Hoje 235 anos depois querem fazer a mesma coisa com a comunidade dos dias de hoje. Esquecendo-se dos valores morais, da dignidade humana. Desrespeitando todos os limites dos direitos humanos. Constrangendo esta comunidade essa comunidade com todo tipo de humilhação”.  Declara Elvis Pessoa.

As coisas foram piorando: o processo de fechamento da comunidade
“Porque opressão a comunidade recebe desde o tempo de minha avó, da minha bisavó, no tempo do meu avô, já existia opressão aqui dentro, na época minha avó morava lá no Conceição, dona Francisca e meu avô Augusto, moravam lá no Conceição, quando roubaram um dinheiro lá de dentro do quartel, eles até reviraram as roças das pessoas da comunidade, achavam que tinham roubado o dinheiro eram as pessoas da comunidade que eram tudo gente pobre, gente humilde de onde não tem de onde realmente tirar o dinheiro, e reviram a roça e tudo e depois foi descobrindo que era gente do quartel mesmo, que era militar que tinha feito isso, mas até eles descobrir quem foi que roubou, a comunidade passou por várias humilhações, passou por muito constrangimentos, teve que ouvir muita coisa, então desde daquela época, desde daquele ano e de anos atrás, na época da minha bisavó, já existia isso”. Laís Miriam dos Santos.

 


 


 

 








Memórias Poéticas..Som & tempo

 
Som o tempo todo
Todo  som no tempo
Todo som do tempo
Todo o tempo
Todo tempo
Som.



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Memórias Poéticas... Os diários de bordo & tripulantes-sobreviventes



 
Trajeto para Costa Marques, Por Taiane Sales. 

O horário para saída era das 19h, cheguei 10 min antes. Todos d'O Imaginário já estavam presentes. Escolhi meu assento, o último, onde tinham 5 poltronas que daria para deitar e dormir tranquilamente. Procurei saber informações sobre a quantidade de integrantes da excursão,  pois assim eu poderia ter esperanças de ocupar as 5 cadeiras (por vezes me vi como A egoísta, o que já desencadeou uma problematização interna). Dirigi-me aos motoristas e iniciei um breve diálogo, fui informada da quantidade de passageiros e do atraso que aconteceria. Logo, avisei os mesmos que aproveitaria esse tempo para ir à igreja, pois precisava ir ao banheiro. Eles riram. Notei que tal atitude quebrou uma barreira, aproximando-nos de forma horizontal, intermediada pelo riso.

Fui à igreja. Percebi vários olhares curiosos, desde o senhor da pipoca, até o padre que direcionava seu olhar à mim, porém fugia quanto à minha retribuição. Cheguei no momento inicial do rito da eucaristia, participei por alguns minutos. Mas com a formação da fila para comungar, fui ao banheiro. Voltei para o ônibus em seguida.

Enfim, era chegada a hora da partida, por volta das 20h. Não demorei muito para deitar e descansar. Porém, algumas horas depois meu corpo quis saltar do banco e foi puxado de volta pelo cinto de segurança. 


Acordei assustada, imaginando que o ônibus tinha batido em algo. Todos passageiros acordaram, o motorista esclareceu não ter visto uma lombada. Fui acalmando e voltei ao sono. Novamente, outro salto. Assustei-me e já me preocupei com a possibilidade dele não está enxergando ou está dormindo mesmo. A guia turística da expedição, que estava ao lado do motorista, deu uma explicação e voltei a me tranquilizar. Pensei comigo mesma que na terceira vez iria ficar acordada, pois "três já é demais". E assim aconteceu, na terceira vez, soltei um palavrão e fiquei alguns minutos acordada, percebi que algumas placas, ora ficavam cobertas por matos, ora nem existiam para avisar a presença de lombadas. Então, rendi-me ao sono novamente. A partir dali, permiti-me vivenciar todos os momentos da melhor maneira. Nos saltos posteriores, eu não me preocupava mais, em alguns eu simplesmente virava pro outro lado e aproveitava o sono. Horas depois, chegávamos a Costa Marques. Desci e fui tomar café, senti o corpo dolorido e percebi alguns hematomas. Apesar de evitar ao máximo fazer uso de medicamentos, tomei um relaxante muscular. Deitei por alguns minutos e preparei as coisas para a trilha. 

Por Edmar Leite

Saída de Porto Velho, pela noite, 19 e tantas, espera, um pouco de impaciência de minha parte, incertezas, são 12 horas? A bateria do celular logo acabaria, vontade de ler mas a luz da minha poltrona não funcionava, cabeça cheia de pensamentos tortos, tinha quase certeza de que eu não conseguiria dormir, uma palavra amiga me acalma coração e mente, consigo pegar no sono; numa literal sensação de perder o chão, sou içado da cadeira, todos acordam em espanto, sensação de riso misturado a choro, foi um quebra-molas não visto.. aprendo a lição e coloco o cinto de segurança. Outras vezes acordo devido aos quebra-molas não vistos, porém sem tanto espanto; num determinado momento parece que apenas eu estou acordado, enquanto todos dormem, solidão. Apesar de tudo consigo descansar bem...

 
Chegamos ao destino, Costa Marques; estou disposto, curioso, aberto; nos instalamos no hotel, café da manhã reforçado e partimos para o Forte; um trecho de média distância de estrada e vamos chegando, como num jogo de ilusão o Forte surge de repente diante de nossos olhos, isso logo me lembrou das aulas de história regional que dizia que nosso Forte era "camuflado" que quando uma embarcação inimiga conseguisse o ver já seria tarde demais; antes de seguir para o Forte encontramos o guia local, assinamos presença, registramos nossa presença e visitamos o pequeno Museu que continha plantas, objetos do local; ao redor do forte aquela sensação de grandeza, percebemos que existe um fosso e uma murada ao redor de todo ele, tudo isso contribui para sua camuflagem; sistemas de auto-defesa; alguns erros históricos nos são corrigidos, o maior deles é sobre seu material de composição, pedraria local e não importada foi usada em toda sua extensão; uma troca de engenheiros o fez não ter ponte elevadiça, seu nome foi para homenagear um nobre e foi dado de presente ao mesmo, que morreu sem conhecer o local; logo na entrada uma energia forte, portas originais.. logo após a entrada as masmorras, sensação de angústia, peso no ar; seguindo adiante chegamos ao centro exato do local, sabemos que ali funcionava como uma pequena cidade, sua extensão toda se mostra totalmente simétrica, sistemas complexos de água, estruturas e medidas para que o vento circulasse bem, é possível enxergar e sinalizar de um baluarte ao outro; engenheiros e arquitetos deveriam ver, falamos sobre as estruturas do lugar, história de ser feito nas coxas (dos escravos fazendo telha, a das mulheres eram consideradas perfeitas); subindo nas muralhas a sensação de ver tudo, sentimento bom; entrar no baluarte parecia que seria divertido porém se mostrou no fim triste, imaginei como seria a vida de um sentinela que ali ficava; finalizando, sabemos um tanto sobre a presença feminina no lugar, antes da construção ali funcionava um quilombo matriarcal chefiado por Ana Moreira em 1775 com possível ligação ao Quilombo do Piolho chefiado por Teresa de Benguela, possivelmente foram expulsos ou coisa pior.. sobre as mulheres que viviam ao redor do forte e que prestavam serviços ao local. Mas isso apenas está presente em cartas. Não chegam a aparecer nas histórias oficiais do lugar.


 
 
 

A VIAGEM, por Zaine Diniz
Mais uma jornada, mochila pronta e pé na estrada! Uma viagem longa se inicia, mais ou menos 12 horas de estrada, e que estrada!!!   Saímos as 20 horas de uma previsão de saída as 19, enfim, na primeira hora de viagem já pude pressentir como seria as 11 restante, mas acreditem, as 11 restantes superaram os meus pressentimentos. Depois da primeira parada em Itapuã para um lanche rápido, o sono veio forte, o barulho de ônibus, a poltrona extremamente desconfortável, estreita e desajeitada e eu mais ainda, tentando arrumar um jeito de me acomodar.  Logo nas primeiras horas as dores apareceram com força, nas pernas, no braço esquerdo, no quadril e o pior... cabeça!   A voz que tentava explicar os por quês de tanto buraco, solavancos ocasionados por quebra molas que não foram vistos pelos motoristas, e eu tentando manter a calma e a boa educação, tentando... pois hora e outra escapava um “palavrão”. Às vezes parecia, tinha a sensação que estava delirando, enfim uma noite de tortura, de mil sensações, que pra mim já estava bom! Poderíamos já voltar!!  Nada mais que me dissessem sobre Forte, Floresta, rios e afins, nada mais me animaria aquele momento... melhor que nem falassem comigo. Esperava que o trajeto fosse feito com um pouco de conforto, uma poltrona que eu pudesse inclinar e dormir... mas isso não aconteceu e o jeito foi apelar para um relaxante muscular, numa  dose cavalar. Depois disso, a viagem seguiu. Não estou reclamando, apenas relatando já que sou instigada a escrever sobre o processo, as sensações e sentimentos e então lá vai, um turbilhão. É um processo intenso e para realizar o trabalho que propormos temos que mergulhar nessas águas e embrenhar nessa mata, pisar nessa terra e se encher de vivências para que possamos atuar com o mínimo de verdade nos nossos corpos e voz. Pela manhã chegamos com uma chuva fina e fria... metade das dores se foram, mas a coluna ainda estava destruída. Um bom banho em um hotel agradável, me trouxe de volta a mim mesma. Voltei a ser a pessoa “normal” paciente, gentil e com humor sustentável. Pronta pra mergulhar nessa história.
 
 




   

Por Flavia Diniz
Quando você está envolvida numa obra, numa pesquisa, tudo vira inspiração. Tudo remete ao texto, à cena. O corpo reage. Zona de desconforto. A cada freada brusca, instantaneamente vem a cena do seringueiro caindo ao rio, com as mãos atadas e tentando segurar a vegetação com os pés. Energias boas e ruins. Calafrios. Todas essas sensações dentro de um só lugar. Uma construção erguida por sangue, lágrimas, desigualdade... Dentro da mata, outras energias... A mãe da mata conhece cada um, a intenção das pessoas que entram pra explorar. Ao entrar sem permissão, a pressão baixa, um pouco tonta, até compreender a dimensão do lugar, a história tão pouco contada. Instabilidade à estabilidade. Experiência esplendorosa. Energia que reverbera ao corpo. Conexão. A contemplação e percepção dos astros iluminados: o pôr do sol e a lua que minguá.

Memórias Poéticas em todos os lugares... no passado e no presente

Nossa visita/vivência ao Forte do Príncipe da Beira foi uma jornada em busca de memórias impregnadas nas paredes do tempo passado e do presente. Um livro que se abre sobre a ação humana no rio e no meio da floresta. Nossa busca é a descoberta da presença feminina nesse lugar vivo e vivenciado por homens. Uma presença Européia no meio do nada. Uma edificação militar para defender os invasores no meio do nada. Nossa busca é pela presença das mulheres nesse lugar hostil e bárbaro. Uma fortaleza no meio do nada e pra nada.









Memórias Poéticas no Vale do Guaporé... O FORTE


Estamos chegando em Costa Marques a cidade do Forte, distante 740 km de Porto Velho. Pela via terrestre BR-364 e BR-429, totalizando aproximadamente 10 horas.

O monumento está localizado na fronteira com a Bolívia, cerca de 25 quilômetros do município de Costa Marques, no Vale do Guaporé.  

O forte esta assentado sobre a Serra dos Parecis, paralelo ao rio Guaporé. O grandioso projeto de Sambocetti previa uma fortificação em plano quadrangular, amuralhado em pedra de cantaria com majestoso portão na frente norte e com baluartes nos ângulos consagrados à Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, Santo Antônio de Pádua e São José Avelino, seguindo as normas da arquitetura militar da época, inspirado no sistema elaborado por Vauban, arquiteto militar francês (1633-1707). Sobre o terrapleno, há quatorze grandes edifícios de pedra lavada ou pedra canga e argamassa, que abrigavam os quartéis da guarnição, hospital, capela, armazéns, casa do governador, cisterna, paiol subterrâneo. A porta principal tinha uma ponte levadiça sobre fosso seco e era protegida por revelim (unidade de medida para superfícies agrárias que corresponde a 100 m2). 

 

O Forte Príncipe da Beira originou-se de uma homenagem ao Príncipe herdeiro da Coroa Portuguesa, D. José de Bragança, que tinha o título de Príncipe da Beira, título que manteve até a morte de sua mãe, Maria I de Portugal, quando então ascendeu ao trono com o título de Príncipe do Brasil.

 





O Real Forte do Príncipe da Beira é considerado uma das maiores obras da engenharia militar portuguesa do período colonial, tanto pela sua edificação como pela sua fundamental localização estratégica.




As memórias poéticas estão em todos os lugares e se espalham por esse território chamado Vale do Guaporé.

 

Fotos: Internet.

Memórias Poéticas - Nos caminhos & floresta

Leitura em grupo feita no parque natural. Cheiro de natureza. Durante a leitura, cada fala, cena, fluindo.  Participação dos insetos,  animais ali presente, tornaram-se protagonistas da dramaturgia. E algum momento a dispersão aparecia e com ela a quentura, umidade da mata... Uma pausa para conhecer o museu. A diversidade dos insertos, bichos... Entender um pouco sobre taxidermia com a mini aula que edmar deu. Voltando para o término da leitura e compreensão,  visualização das cenas tornam-se mais nítidas. Um reencontro com a natureza. Conexão com a vida, biodiversidade. Encontrar-se. Pés fincados.



Leitura neutra em meio à natureza. Não houve nenhuma divisão dos personagens, lia quem desejava, era aleatória. Tal dinâmica com o texto me despertou para a necessidade de sensibilidade e atenção, para que não atropelasse a leitura do outro e estivesse atenta ao local. Alguns fatos foram marcantes e influenciaram tanto na maneira de ler o texto quanto na minha percepção e construção pessoal.



O material que estamos nos debruçando me instiga à reflexões sobre o modo de viver no seringal, mais especificamente à conexão com a natureza e a simplicidade humana. Considerando o caos de uma sociedade capitalista, e o pouco tempo que eu (imagino que muitos cidadãos) dedico a conhecer e estudar sobre si, vejo as experiências de campo (ida ao Parque Circuito e ao Parque Natural) como estímulos valorosos que me despertaram para a alteração de comportamento quando em contato com a natureza. Como se me reconectasse, ou voltasse à origem. Minhas energias sendo recarregadas pelo ar puro e fresco do local. A importância de estar atenta ao que circula e que emana de mim, possibilitando abertura às influência do meio (árvores, riacho, macacos e mosquitos) tornou a leitura mais envolvente, simples e sensível. Logo, exigiu muita atenção durante todo o encontro. Do trajeto Tapiri/Parque/Tapiri à visita ao museu. Em resumo de tantas sensações e interpretações, destaco a relevância de estar atenta e disponível para que o caminho/processo seja proveitoso e produtivo.


 


Caminhar por uma trilha de madeira, molhada e escorregadia que nos obriga a buscar o equilíbrio constantemente, com um texto na mão e olhos que se perdem entre a paisagem exuberante das copas e troncos, folhagens rasteiras... e o texto que muito diz sobre onde estamos caminhando,  e os olhos se perdem, perco o foco constantemente. 



A voz sai diferente, por mais branda, branca e neutra que quero discorrer a leitura, impossível não transmitir na voz as sensações que estou vivendo nesse momento. Frescor da mata, a sonoridade do local que interfere positivamente nessa caminhada, os tapas inevitáveis em meu corpo pra tentar conter o ataque dos piuns e carapanãs que insistem em me cutucar. Preciso ser ouvida por eles, meus companheiros de cena e aventura de pesquisa, preciso ouvi-los... muitas informações em um só momento. Precioso momento pra sentir, se colocar no lugar do outro, ser uma “Borracheira” em todos os sentidos.